terça-feira, 14 de junho de 2011

Roubo de penosas e comilança

Sexta-feira Santa de 1971. Um grupo de jogadores do Operário que moravam na “república” do clube, na Avenida Couto Magalhães, que naquela época não era toda asfaltada, decidiu roubar umas galinhas para comemorar o Sábado da Aleluia. Do grupo faziam parte Bife, Jorge Cruz, Joel Diamantino, Gaguinho, Dirceu Batista e Odenir, o Upa Neguinho, além de "Chega Junto", zelador da “república” e irmão do jogador operariano Sabará.
Já passava da meia noite, quando o grupo saiu do alojamento, com a certeza de que seria uma moleza banquetear com penosas dos outros, como era tradição antigamente. Tinham razões os jogadores para pensar assim. É que bem defronte a “república” morava uma família que criava muitas galinhas e era ali, conforme haviam decidido antes, que iam deitar e rolar...
Nem bem puseram os pés na rua para sair em busca das galinhas, todos trajando uniforme de treino do Operário, ouviram a voz do dono do galinheiro. "Aqui, não, seus malandros! Minhas galinhas estão trancadas e bem protegidas. Vamos andando!..." – ordenou o vizinho, como se tivesse adivinhado o pensamento dos jogadores.
Ninguém sabia onde, ali por perto, existia outro galinheiro. Os jogadores decidiram, então, roubar um porco para a ceia da Aleluia. Mas no primeiro chiqueiro que entraram, uma desagradável surpresa: o dono certamente havia também escondido seus animais e ainda por cima Odenir caiu dentro da pocilga, ficando com um mau cheiro desgraçado de bosta de porco.
A decisão do grupo de só voltar para a “república” com as galinhas ou pelo menos um porco era irreversível. Já tinham até combinado com dona Neta, uma senhora que sempre foi a segunda mãe dos jogadores que viviam no alojamento, a festa do Sábado da Aleluia...
Na caminhada sem destino pela Couto Magalhães, lá pelas tantas um ouvido mais acurado escutou um barulho de motor. E identificou do que se tratava: era um velho e único jipe que a Polícia Civil de Várzea Grande utilizava para fazer rondas noturnas por ali. E sempre ocupado por dois policiais chatos que só eles...
Para evitar uma eventual encrenca com os policiais, os jogadores decidiram rapidinho formar grupos de dois em dois e continuaram a caminhada, fazendo aquele exercício em que a pessoa bate palmas sobre a cabeça, com os braços bem levantados, e com a ponta dos dedos toca a clavícula.
Não deu outra: os policiais foram chegando e interrogando o grupo sobre a presença deles, àquela hora, já na parte sem asfalto da avenida, fazendo aqueles movimentos sincronizados.
– Ora, estamos treinando – respondeu alguém.
– Mas a esta hora? – questionou um dos policiais.
– É que o jogo de domingo vai ser muito difícil, é preciso a gente treinar muito para ficar em boa forma física...– justificou outro.
Os chatos policiais não acreditaram muito na história, mas foram embora...
A madrugada avançava quando os jogadores, depois de bater muita perna e bem sucedidas invasões a galinheiros da área de abrangência da “república”, chegaram na casa de dona Neta. Com 12 galinhas dentro de um saco de carregar material esportivo do Operário e das quais apenas uma delas morta de tanto "Chega Junto" apertar seu pescoço para a penosa não gritar quando estava sendo roubada...
Porta aberta com um sorriso de recepção de mãe Neta, foi todo mundo ajudar a preparar as penosas: matar, ferver água para arrancar as penas, tirar as tripas, trinchar, etc.. E aí foram três dias de comilança de galinha com arroz, ao molho, assada, à passarinho...

(Esta história faz parte do livro Folclore do Futebol de Mato Grosso)

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