sexta-feira, 24 de junho de 2011

Exu frangueiro

O jogo que o União ia disputar com o Dom Bosco pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1978 era quase de vida ou morte. Durante a semana da ansiosamente esperada peleja, alguém teve a idéia de os jogadores irem a um centro espírita de Rondonópolis pedir proteção e ajuda às forças do além para o time sair de campo vitorioso...
Logo a sugestão se espalhou entre o plantel. Ficou combinado, então, que mesmo os que não acreditavam em espiritismo ou macumba, teriam que comparecer à sessão de descarrego para não quebrar a corrente. O União tinha jogadores como Ruiter, Gílson Lira, Ernani, Mário Sérgio, Pindu, Zé Cachorro. Só craques mesmo. Mas uma forcinha extra ajudaria muito...
De comum acordo, os jogadores escolheram um centro de umbanda que trabalhava com mesa branca até por volta das 21 horas, com os guias incorporando divindades do bem para aconselhar quem os procurava, receitar medicamentos e tratamentos, dar passes, resolver problemas conjugais, etc..
A partir daquele horário, alguns guias do terreiro recebiam caboclos da pesada, como exus e tranca ruas. Na sexta-feira, conforme tinha sido combinado, lá se foram os jogadores para o centro espírita.
Assim que chegaram ao terreiro, o goleiro Almeida procurou se informar quais eram os guias que recebiam exus. Apresentado a um deles, Almeida foi direto ao assunto: precisava de uma proteção especial para não sofrer gols contra o Dom Bosco,
Quando exu baixou no terreiro, Almeida, sem rodeios, fez-lhe o pedido. O orixá concordou em ajudar Almeida a fechar o gol, mas impôs uma condição: antes de começar o jogo, queria uma dose caprichada de marafo, que na linguagem da macumba quer dizer cachaça.
Chegada a hora do jogo, Almeida pegou um vidro com cachaça, embrulhou numa pequena toalha e entrou em campo confiante como nunca na vitória. Afinal, fazia dois anos e meio que o União não perdia no Luthero Lopes.
Escolhido o campo, Almeida foi para o gol que ia defender, fez suas mandingas – como chutar os postes, dar pulinhos no centro da meta tocando as mãos no travessão, sempre rezando, bater os pés três vezes cada, se benzendo. Para completar, despejou a pinga nos dois postes, para exu...
O jogo estava muito difícil para os dois lados. Boas oportunidades os dois times criavam, mas nada de sair gols. Os jogadores do União até que não se preocupavam muito com os ataques do Dom Bosco, pois, afinal, exu estava no gol dando uma força e tanto para Almeida...
Finalzinho do primeiro tempo e o juiz marca uma falta perto da grande área contra o União. Bargas, que era o terror dos goleiros em chutes de bola parada, mesmo de longa distância, prepara-se para cobrança.
Almeida vai para o canto esquerdo, orienta a formação da compacta barreira do lado direito, deixando um pequeno espaço para Bargas tentar o chute no corredor em que o arqueiro estava. Impossível a bola passar por ali... ainda mais com a presença de exu no gol.
Quando Bargas bateu na bola, Gílson Lira, que sempre ficava de frente para quem ia cobrar a falta, se tinha que ficar na barreira, não teve dúvidas: era gol. No chute perfeito de Bargas, a bola fez uma curva e entrou exatamente no ângulo oposto ao do lado que Almeida guarnecia...
– Porra, pega a bola exu, essa não dá pra mim!... – gritou desesperado Almeida, enquanto a bola estufava a rede do União...
O estádio de Rondonópolis transformou-se então em palco de duas cenas inusitadas simultâneas: enquanto os jogadores do Dom Bosco festejavam com euforia o gol de Bargas, os do União morriam de rir com o grito de Almeida. Os torcedores e muito menos diretores do União não entendiam nada do que estava acontecendo.
Terminado o primeiro tempo, os jogadores do União já entraram no vestiário levando esporros do presidente Lamartine da Nóbrega e do treinador Genésio do Carmo. Esclarecido o motivo de tanta risada por causa de um gol do time adversário, o União voltou para o 2° tempo e acabou vencendo o jogo por 2x1.
Apesar da vitória, o goleiro Almeida passou muito tempo xingando exu de tudo quanto é nome por ter sido enganado pela divindade do candomblé...

(Esta história faz parte do livro Folclore do Futebol de Mato Grosso)

Um comentário:

  1. Tão significativas lembranças. Parabéns, Nelson, por esse presente aos seus leitores e ao futebol brasileiro.

    ResponderExcluir