O jogo que o União ia disputar com o Dom Bosco pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1978 era quase de vida ou morte. Durante a semana da ansiosamente esperada peleja, alguém teve a idéia de os jogadores irem a um centro espírita de Rondonópolis pedir proteção e ajuda às forças do além para o time sair de campo vitorioso...
Logo a sugestão se espalhou entre o plantel. Ficou combinado, então, que mesmo os que não acreditavam em espiritismo ou macumba, teriam que comparecer à sessão de descarrego para não quebrar a corrente. O União tinha jogadores como Ruiter, Gílson Lira, Ernani, Mário Sérgio, Pindu, Zé Cachorro. Só craques mesmo. Mas uma forcinha extra ajudaria muito...
De comum acordo, os jogadores escolheram um centro de umbanda que trabalhava com mesa branca até por volta das 21 horas, com os guias incorporando divindades do bem para aconselhar quem os procurava, receitar medicamentos e tratamentos, dar passes, resolver problemas conjugais, etc..
A partir daquele horário, alguns guias do terreiro recebiam caboclos da pesada, como exus e tranca ruas. Na sexta-feira, conforme tinha sido combinado, lá se foram os jogadores para o centro espírita.
Assim que chegaram ao terreiro, o goleiro Almeida procurou se informar quais eram os guias que recebiam exus. Apresentado a um deles, Almeida foi direto ao assunto: precisava de uma proteção especial para não sofrer gols contra o Dom Bosco,
Quando exu baixou no terreiro, Almeida, sem rodeios, fez-lhe o pedido. O orixá concordou em ajudar Almeida a fechar o gol, mas impôs uma condição: antes de começar o jogo, queria uma dose caprichada de marafo, que na linguagem da macumba quer dizer cachaça.
Chegada a hora do jogo, Almeida pegou um vidro com cachaça, embrulhou numa pequena toalha e entrou em campo confiante como nunca na vitória. Afinal, fazia dois anos e meio que o União não perdia no Luthero Lopes.
Escolhido o campo, Almeida foi para o gol que ia defender, fez suas mandingas – como chutar os postes, dar pulinhos no centro da meta tocando as mãos no travessão, sempre rezando, bater os pés três vezes cada, se benzendo. Para completar, despejou a pinga nos dois postes, para exu...
O jogo estava muito difícil para os dois lados. Boas oportunidades os dois times criavam, mas nada de sair gols. Os jogadores do União até que não se preocupavam muito com os ataques do Dom Bosco, pois, afinal, exu estava no gol dando uma força e tanto para Almeida...
Finalzinho do primeiro tempo e o juiz marca uma falta perto da grande área contra o União. Bargas, que era o terror dos goleiros em chutes de bola parada, mesmo de longa distância, prepara-se para cobrança.
Almeida vai para o canto esquerdo, orienta a formação da compacta barreira do lado direito, deixando um pequeno espaço para Bargas tentar o chute no corredor em que o arqueiro estava. Impossível a bola passar por ali... ainda mais com a presença de exu no gol.
Quando Bargas bateu na bola, Gílson Lira, que sempre ficava de frente para quem ia cobrar a falta, se tinha que ficar na barreira, não teve dúvidas: era gol. No chute perfeito de Bargas, a bola fez uma curva e entrou exatamente no ângulo oposto ao do lado que Almeida guarnecia...
– Porra, pega a bola exu, essa não dá pra mim!... – gritou desesperado Almeida, enquanto a bola estufava a rede do União...
O estádio de Rondonópolis transformou-se então em palco de duas cenas inusitadas simultâneas: enquanto os jogadores do Dom Bosco festejavam com euforia o gol de Bargas, os do União morriam de rir com o grito de Almeida. Os torcedores e muito menos diretores do União não entendiam nada do que estava acontecendo.
Terminado o primeiro tempo, os jogadores do União já entraram no vestiário levando esporros do presidente Lamartine da Nóbrega e do treinador Genésio do Carmo. Esclarecido o motivo de tanta risada por causa de um gol do time adversário, o União voltou para o 2° tempo e acabou vencendo o jogo por 2x1.
Apesar da vitória, o goleiro Almeida passou muito tempo xingando exu de tudo quanto é nome por ter sido enganado pela divindade do candomblé...
(Esta história faz parte do livro Folclore do Futebol de Mato Grosso)
sexta-feira, 24 de junho de 2011
terça-feira, 14 de junho de 2011
Roubo de penosas e comilança
Sexta-feira Santa de 1971. Um grupo de jogadores do Operário que moravam na “república” do clube, na Avenida Couto Magalhães, que naquela época não era toda asfaltada, decidiu roubar umas galinhas para comemorar o Sábado da Aleluia. Do grupo faziam parte Bife, Jorge Cruz, Joel Diamantino, Gaguinho, Dirceu Batista e Odenir, o Upa Neguinho, além de "Chega Junto", zelador da “república” e irmão do jogador operariano Sabará.
Já passava da meia noite, quando o grupo saiu do alojamento, com a certeza de que seria uma moleza banquetear com penosas dos outros, como era tradição antigamente. Tinham razões os jogadores para pensar assim. É que bem defronte a “república” morava uma família que criava muitas galinhas e era ali, conforme haviam decidido antes, que iam deitar e rolar...
Nem bem puseram os pés na rua para sair em busca das galinhas, todos trajando uniforme de treino do Operário, ouviram a voz do dono do galinheiro. "Aqui, não, seus malandros! Minhas galinhas estão trancadas e bem protegidas. Vamos andando!..." – ordenou o vizinho, como se tivesse adivinhado o pensamento dos jogadores.
Ninguém sabia onde, ali por perto, existia outro galinheiro. Os jogadores decidiram, então, roubar um porco para a ceia da Aleluia. Mas no primeiro chiqueiro que entraram, uma desagradável surpresa: o dono certamente havia também escondido seus animais e ainda por cima Odenir caiu dentro da pocilga, ficando com um mau cheiro desgraçado de bosta de porco.
A decisão do grupo de só voltar para a “república” com as galinhas ou pelo menos um porco era irreversível. Já tinham até combinado com dona Neta, uma senhora que sempre foi a segunda mãe dos jogadores que viviam no alojamento, a festa do Sábado da Aleluia...
Na caminhada sem destino pela Couto Magalhães, lá pelas tantas um ouvido mais acurado escutou um barulho de motor. E identificou do que se tratava: era um velho e único jipe que a Polícia Civil de Várzea Grande utilizava para fazer rondas noturnas por ali. E sempre ocupado por dois policiais chatos que só eles...
Para evitar uma eventual encrenca com os policiais, os jogadores decidiram rapidinho formar grupos de dois em dois e continuaram a caminhada, fazendo aquele exercício em que a pessoa bate palmas sobre a cabeça, com os braços bem levantados, e com a ponta dos dedos toca a clavícula.
Não deu outra: os policiais foram chegando e interrogando o grupo sobre a presença deles, àquela hora, já na parte sem asfalto da avenida, fazendo aqueles movimentos sincronizados.
– Ora, estamos treinando – respondeu alguém.
– Mas a esta hora? – questionou um dos policiais.
– É que o jogo de domingo vai ser muito difícil, é preciso a gente treinar muito para ficar em boa forma física...– justificou outro.
Os chatos policiais não acreditaram muito na história, mas foram embora...
A madrugada avançava quando os jogadores, depois de bater muita perna e bem sucedidas invasões a galinheiros da área de abrangência da “república”, chegaram na casa de dona Neta. Com 12 galinhas dentro de um saco de carregar material esportivo do Operário e das quais apenas uma delas morta de tanto "Chega Junto" apertar seu pescoço para a penosa não gritar quando estava sendo roubada...
Porta aberta com um sorriso de recepção de mãe Neta, foi todo mundo ajudar a preparar as penosas: matar, ferver água para arrancar as penas, tirar as tripas, trinchar, etc.. E aí foram três dias de comilança de galinha com arroz, ao molho, assada, à passarinho...
(Esta história faz parte do livro Folclore do Futebol de Mato Grosso)
Já passava da meia noite, quando o grupo saiu do alojamento, com a certeza de que seria uma moleza banquetear com penosas dos outros, como era tradição antigamente. Tinham razões os jogadores para pensar assim. É que bem defronte a “república” morava uma família que criava muitas galinhas e era ali, conforme haviam decidido antes, que iam deitar e rolar...
Nem bem puseram os pés na rua para sair em busca das galinhas, todos trajando uniforme de treino do Operário, ouviram a voz do dono do galinheiro. "Aqui, não, seus malandros! Minhas galinhas estão trancadas e bem protegidas. Vamos andando!..." – ordenou o vizinho, como se tivesse adivinhado o pensamento dos jogadores.
Ninguém sabia onde, ali por perto, existia outro galinheiro. Os jogadores decidiram, então, roubar um porco para a ceia da Aleluia. Mas no primeiro chiqueiro que entraram, uma desagradável surpresa: o dono certamente havia também escondido seus animais e ainda por cima Odenir caiu dentro da pocilga, ficando com um mau cheiro desgraçado de bosta de porco.
A decisão do grupo de só voltar para a “república” com as galinhas ou pelo menos um porco era irreversível. Já tinham até combinado com dona Neta, uma senhora que sempre foi a segunda mãe dos jogadores que viviam no alojamento, a festa do Sábado da Aleluia...
Na caminhada sem destino pela Couto Magalhães, lá pelas tantas um ouvido mais acurado escutou um barulho de motor. E identificou do que se tratava: era um velho e único jipe que a Polícia Civil de Várzea Grande utilizava para fazer rondas noturnas por ali. E sempre ocupado por dois policiais chatos que só eles...
Para evitar uma eventual encrenca com os policiais, os jogadores decidiram rapidinho formar grupos de dois em dois e continuaram a caminhada, fazendo aquele exercício em que a pessoa bate palmas sobre a cabeça, com os braços bem levantados, e com a ponta dos dedos toca a clavícula.
Não deu outra: os policiais foram chegando e interrogando o grupo sobre a presença deles, àquela hora, já na parte sem asfalto da avenida, fazendo aqueles movimentos sincronizados.
– Ora, estamos treinando – respondeu alguém.
– Mas a esta hora? – questionou um dos policiais.
– É que o jogo de domingo vai ser muito difícil, é preciso a gente treinar muito para ficar em boa forma física...– justificou outro.
Os chatos policiais não acreditaram muito na história, mas foram embora...
A madrugada avançava quando os jogadores, depois de bater muita perna e bem sucedidas invasões a galinheiros da área de abrangência da “república”, chegaram na casa de dona Neta. Com 12 galinhas dentro de um saco de carregar material esportivo do Operário e das quais apenas uma delas morta de tanto "Chega Junto" apertar seu pescoço para a penosa não gritar quando estava sendo roubada...
Porta aberta com um sorriso de recepção de mãe Neta, foi todo mundo ajudar a preparar as penosas: matar, ferver água para arrancar as penas, tirar as tripas, trinchar, etc.. E aí foram três dias de comilança de galinha com arroz, ao molho, assada, à passarinho...
(Esta história faz parte do livro Folclore do Futebol de Mato Grosso)
Comentários
Nelson Severino
Jornalista e escritor
Prezado Senhor
Parabenizo veterano jornalista e professor pelo lançamento do livro “Folclore do futebol de Mato Grosso”, ocorrido no dia 27/05, às 19h30, na sede da AGECOPA, nesta capital.
Este livro contribuirá notavelmente para a valorização da história do futebol mato-grossense contada por aqueles personagens que fizeram e o vivenciaram.
Fraternalmente,
Leonardo Pio da Silva Campos,
Presidente da Caixa de Assistência dos Advogados de Mato Grosso.
Estimado Nelson,
Foi com enorme alegria que, ao visitar a Livraria Janina, no Shopping Pantanal, no último domingo, vi exposto na vitrine principal o seu livro “Folclore do futebol de MT”. Comprei e estou lendo... e gostando muito.
Parabéns pela concretização do seu sonho.
Já estou ansioso, esperando a publicação do segundo volume!
Um abraço,
Reinhard Ramminger
Prezado Nelson.!
Dia 08 de Junho, data de meu aniversário fui presenteado com sua bela obra" Folclore do Futebol de Mato Grosso", que verdadeiramente ultrapassou as minhas expectativas pelo rico conteúdo dos acontecimentos futebolísticos narrados, levando o leitor a se deliciar com as lembranças de um passado glorioso e hilário em todas as fases da história do futebol de Mato Grosso.
A parte, com as narrativas de Pedro Lima, pude recordar do grande Wilsinho, crack inconteste do temido Pantera do Leste, que poderia jogar em qualquer time do Brasil. Em 1965 o Mixto foi buscá-lo por empréstimo em Alto Araguaia-MT para um jogo com o Flamengo do Rio aqui no Dutrinha, onde fizemos a dupla de ataque.
Parabéns mais uma vez, e siga em frente que a 1ª amostra tenho certeza já foi aprovada.
Um grande abraço
do amigo
Lito.
Jornalista e escritor
Prezado Senhor
Parabenizo veterano jornalista e professor pelo lançamento do livro “Folclore do futebol de Mato Grosso”, ocorrido no dia 27/05, às 19h30, na sede da AGECOPA, nesta capital.
Este livro contribuirá notavelmente para a valorização da história do futebol mato-grossense contada por aqueles personagens que fizeram e o vivenciaram.
Fraternalmente,
Leonardo Pio da Silva Campos,
Presidente da Caixa de Assistência dos Advogados de Mato Grosso.
Estimado Nelson,
Foi com enorme alegria que, ao visitar a Livraria Janina, no Shopping Pantanal, no último domingo, vi exposto na vitrine principal o seu livro “Folclore do futebol de MT”. Comprei e estou lendo... e gostando muito.
Parabéns pela concretização do seu sonho.
Já estou ansioso, esperando a publicação do segundo volume!
Um abraço,
Reinhard Ramminger
Prezado Nelson.!
Dia 08 de Junho, data de meu aniversário fui presenteado com sua bela obra" Folclore do Futebol de Mato Grosso", que verdadeiramente ultrapassou as minhas expectativas pelo rico conteúdo dos acontecimentos futebolísticos narrados, levando o leitor a se deliciar com as lembranças de um passado glorioso e hilário em todas as fases da história do futebol de Mato Grosso.
A parte, com as narrativas de Pedro Lima, pude recordar do grande Wilsinho, crack inconteste do temido Pantera do Leste, que poderia jogar em qualquer time do Brasil. Em 1965 o Mixto foi buscá-lo por empréstimo em Alto Araguaia-MT para um jogo com o Flamengo do Rio aqui no Dutrinha, onde fizemos a dupla de ataque.
Parabéns mais uma vez, e siga em frente que a 1ª amostra tenho certeza já foi aprovada.
Um grande abraço
do amigo
Lito.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Lançamento do livro Folclore do futebol de Mato Grosso
Foi um sucesso o lançamento do livro Folclore do futebol de Mato Grosso, escrito pelo jornalista Nelson Severino, que em 248 páginas da obra, reproduz 120 histórias, da forma como lhe foram contadas pelos seus personagens (jogadores, dirigentes, juízes, bandeirinhas, torcedores, etc.) –que ao longo de mais de sete décadas – as primeiras bolas chegaram em Cuiabá em 1905, mas as primeiras partidas só foram disputadas em 1913 – que viveram a fase romântica do futebol amador e do profissional, implantado no Estado em 1967. O evento teve lugar na Agecopa, que bancou a impressão da primeira edição do livro e que foi representada pelo diretor de Infra-estrutura Carlos Brito de Lima e o assessor de Imprensa Eduardo Ricci, que destacaram a importância da obra, cujo principal objetivo é resgatar uma parte da cultura de Mato Grosso que está sendo consumida pela ferrugem do tempo. Além de muitos amigos e familiares do jornalista prestigiaram o lançamento do livro os ex-jogadores Fulepa, Glauco Marcelo e Nelson Vasques, os jornalistas Sérgio Neves (Folha do Estado), Mário Hashimoto (Revista Sina) e Oliveira Júnior (A Gazeta), que edita junto com Davi Cézar a revista Espoint e outros. (Veja o vídeo produzido pela Agecopa) sobre o lançamento do livro.
teste
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