Na semana do primeiro
jogo decisivo do Campeonato Mato-grossense de Futebol de 68/69 – nos
primórdios do futebol profissional em Mato Grosso o certame começava num ano e
terminava no outro – entre Mixto e Operário, o técnico tricolor Tchê Teodorico
caprichou na preparação física da moçada. Foi treinamento físico de terça-feira
a sábado, nada de bola.
Os jogadores
estranharam e alguns até reclamaram do excesso de preparo físico. Mas o
treinador deu continuidade à programação para manter a equipe bem condicionada
fisicamente. Pior: os jogadores sabiam que o técnico não entendia patavina de
preparação física...
Para complicar ainda
mais a situação, o Operário realizava seus treinos num campo de areia de goma,
pesado que só. O campo ficava no lugar onde funciona atualmente a Associação
Cultural Nipo-Brasileira, em Várzea Grande, com entrada pela Rua Castro Alves.
Todo
mundo sabia que aquele campo não prestava para preparação física por seu piso
ser duro demais. Mas a ordem para o Operário treinar ali era do presidente Rubens dos Santos,
que era muito amigo do dono do terreno, Hélio Jesus da Fonseca.
Chegou o dia do jogo, que foi apitado
pelo então mais famoso árbitro do futebol brasileiro, Armando Marques. Enquanto
o Mixto deslanchava bonitinho, tocando direitinho a bola, o Operário parecia
empacado. Resultado: o Mixto ganhou por 2x1.
Na terça-feira, quando os jogadores
chegaram ao campo para iniciar os preparativos para a segunda partida decisiva
e Tchê Teodorico mandou o plantel se trocar para uma sessão de preparação
física, Glauco gritou: “Eu não vou treinar...”
O quarto-zagueiro operariano tinha um
bom motivo para não fazer física: ele estava envergonhado do baile que havia
levado do ponta-de-lança mixtense Marcelo no primeiro jogo decisivo. Até
parecia que suas pernas estavam amarradas: Glauco, logo ele, perdeu todas as
jogadas que disputou com o atacante mixtense.
É claro que os demais jogadores
seguiram o exemplo de Glauco, recusando-se a fazer física. Tchê Teodorico
ainda tentou convencer a rapaziada a treinar, porém não adiantou: ninguém lhe
deu bola.
Veio o segundo jogo. Com os jogadores
bem descontraídos e sem a musculatura fadigada, os tricolores fizeram uma
grande partida e o Operário venceu, com folga, por 3x1. Operário e Mixto foram,
então, para a decisão, dia 2 de fevereiro de 1969. O tricolor venceu por 3x2,
conquistando o bicampeonato mato-grossense de futebol profissional.
Por ocasião da 2ª partida entre
tricolores e alvinegros, quando os operarianos entraram no vestiário viram num
canto uma jarra, bem grande, até a boca de chá-mate. Alguns olharam de soslaio
para a vasilha. Por que chá -mate e não suco ou outro líquido para os jogadores
tomarem antes de entrar em campo? – questionavam entre si.
Glauco chamou o lateral direito Darci
Piquira, na inocência dos seus 17 anos, apontou para a jarra e lhe disse como
se estivesse dando uma ordem: “Não beba isso aí, garoto...”
Notando a desconfiança dos jogadores,
o técnico Tchê Teodorico prometeu que depois falaria sobre o segredo da jarra
de chá-mate. Mas nem precisou explicar nada: com a vitória, o pessoal queria
mesmo era festejar a fácil vitória...
A decisão foi
marcada para quarta-feira à noite. No vestiário, a mesma jarra transbordando
de chá-mate, consumido geladinho, porém em quantidades bem dosadas, inclusive
durante a partida, por alguns jogadores. De vez em quando algum jogador chegava
na beira do campo e dava uma beiçada no chá...
Com a vitória por 3x2, do Dutrinha os
operarianos, até carregados pelos torcedores, foram direto, a pé, festejando
pelas ruas, para o Bar Verdecap, que funcionou durante muitos anos no local
onde foi construído tempos depois o Hotel Presidente na Avenida Getúlio
Vargas, esquina com a Rua Barão de Melgaço. A concentração de jogadores e
torcedores no Verdecap foi rápida, porque a turma queria mesmo era ir para a
boate Tabaris, no Boa Esperança, para encerrar a noite com uma festa do
bicampeonato em alto estilo.
Na boate, finalmente, os operarianos
desvendaram o mistério do chá-mate. No segundo jogo, o Operário tinha contado
com o reforço de uma “seleção” de 30 comprimidos dissolvidos de vários tipos de
estimulantes; no 3º, a “seleção” foi reforçada com mais 10 comprimidos,
principalmente de Pervintin.
Pelo que se
conta até hoje, a ideia do “reforço” do chá-mate como doping teria sido do
atacante Gebara, do Operário. Em alguns jogadores, o consumo do chá-mate teve
efeito retardado. O ponteiro esquerdo Upa Neguinho, por exemplo, teve que
tomar muito leite de madrugada, depois da farra na Tabaris, para se livrar de
uma terrível dor estomacal, enquanto o meio campo Tatu queria porque queria
voltar ao Dutrinha para continuar jogando...
Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso
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