terça-feira, 19 de junho de 2012

Sentada na bola e confusão

 Se nós estivermos ganhando, bem no final da partida um jogador vai sentar na bola..." – essa ordem foi dada pelo jogador e técni­co Ruiter na preleção no vestiário antes do Mixto entrar em campo em Rio Branco para cumprir o quarto compromisso, encerrando uma excursão por gramados da capital acreana em junho de 1972. Foi uma temporada bem lou­ca, com o alvinegro disputando 4 jogos em apenas cinco dias e se metendo em cada confusão...

Sentar na bola durante um jogo, uma ofensa intolerável no futebol, era uma forma do Mixto se vingar do tratamento nada cortês que estava re­cebendo dos acreanos. Já no primeiro jogo, que o Mixto perdeu de 1x0 para o Atlético Acreano, os comentaristas de rádios e de jornais chamaram os jo­gadores mixtenses de enganadores e pernas de pau. Afinal – ironizavam os cronistas – o Mixto era um time de profissionais e os jogadores atleticanos simples amadores...

Veio o 2º jogo, no dia seguinte, contra o Juventus, e o Mixto perdeu de novo, por 2x1. Novamente a crônica esportiva rio-branquense caiu de pau no alvinegro, cujo futebol era uma grande decepção para os acreanos. Os mix­tenses ficaram muito chateados com as críticas da crônica esportiva, pois o Tigre já era uma equipe respeitada no futebol brasileiro.

No terceiro jogo, contra o Rio Branco, o Mixto conseguiu um suado empate pela contagem mínima. O resultado não melhorou a cotação do alvi­negro perante os torcedores acreanos e muito menos à crônica esportiva.

Encerrando a temporada, o Mixto enfrentou o Independência. O time mato-grossense jogava fácil e ganhava o jogo por 2x0, com todos os mé­ritos.

Aos 43 minutos do 2º tempo, o goleiro Zé Rondonópolis, depois de um ataque da equipe adversária, em vez de repor a bola em jogo, sentou-se so­bre ela e ficou girando a cabeça em todas as direções do estádio, numa atitude zombeteira e provocativa!

Pra quê, xômano!... o pau quebrou feio! Num piscar de olhos, centenas de torcedores invadiram o campo e depois de tomar dos escoteiros que ajudavam a Polícia Militar no policiamento aquelas espécies de bordunas de 1,5 m de comprimento que usam em suas caminhadas em grupos, passaram a bater nos mixtenses sem dó. Os jovens escoteiros, coitados, acompanhavam o massacre sem poder fazer nada.

– Nós parecíamos tropas do general Custer sitiadas pelos índios sioux nos tempos da conquista do oeste americano – recorda o zagueiro cen­tral Felizardo. Apesar da eficiência da PM na proteção dos mixtenses, muitas pessoas da delegação alvinegra entraram na porrada pra valer.

O hotel onde o time mato-grossense estava alojado ficava bem próxi­mo do estádio. Os mixtenses voltaram para o hotel a pé, sob a proteção da PM, pois os torcedores rio-branquenses queriam bater mais nos jogadores alvine­gros por causa da ofensa de Zé Rondonópolis.

A tumultuada partida foi realizada numa quarta-feira à noite e logo que a delegação chegou ao hotel, o meio campo Ferreira, que era chegadinho numa birita, raspou a barba e foi para as ruas das imediações sondar como estava o ambiente. E voltou assustado com a revolta dos torcedores.

O embarque do Mixto para Cuiabá estava marcado para dois dias de­pois, porque naquele distante 1972 avião de passageiros nos céus da Amazônia era artigo de luxo. Para se vingar do insulto de Zé Rondonópolis, dezenas de torcedores passaram a noite fazendo barulho nas imediações do hotel para não deixar os mixtenses dormir...

A pancadaria no estádio e a arruaça dos torcedores no hotel eram apenas o começo de uma série de problemas que a delegação do Mixto ainda ia enfrentar em Rio Branco – lembra o massagista Carlito, do Mixto, que tinha viajado no lugar de Lisboa, que não podia sair de Cuiabá.

Se já não bastasse a grande confusão da noite, lá pelas 11h30 estava armado o maior fuá defronte ao hotel onde a delegação alvinegra ficou alojada. O motivo do rolo: a prisão do jogador Ferreira.

Acontece que Ferreira havia apostado com alguém da delegação que ele tinha coragem de mijar defronte ao hotel em pleno dia. E no horário com­binado – entre 11h30 e 12 horas – Ferreira saiu do hotel, olhou para os lados da rua e como não viu ninguém, começou a urinar...

Ferreira não tinha visto ninguém mesmo, nem um taxista que estava dentro do seu carro a uns 30 metros dali. O taxista, que também estava puto com a palhaçada de Zé Rondonópolis, ligou para a PM, que chegou rapidinho e prendeu Ferreira por atentado ao pudor...

O chefe da delegação/treinador/jogador Ruiter entrou na confusão em defesa do seu companheiro. Mas a prova do crime – a calçada molhada de urina – estava ali. E foi ajuntando pessoas, muitas delas já dispostas a dar uns catiripapos, de novo, nos mixtenses.

Depois de muito bate-boca e ameaças, Ruiter fez um acordo com os PMs que prenderam Ferreira: em vez de ir para uma cela, ficaria “detido” no hotel, de onde só sairia quando a delegação alvinegra fosse para o aeroporto...

Acordo selado e cumprido. No dia seguinte, logo cedo a delegação se mandou para o aeroporto de Rio Branco para não correr o risco de perder o voo. Chegava de tanto rolo! Mas o céu estava nublado e uma densa neblina impedia o avião, que já estava com a bagagem dos passageiros, de decolar.

Enquanto a tripulação aguardava autorização da torre de controle para a aeronave levantar voo, Ruiter resolveu engraxar os sapatos. Aí, a certa altura, apareceu onde Ruíter estava um empregado do aeroporto que começou a provocar o jogador, afirmando que o Mixto era uma porcaria de time de futebol, não valia nada, como a imprensa esportiva acreana estava dizendo...

De repente, Ruiter, que lia um jornal de Rio Branco que falava do Mixto, explodiu com o torcedor: “Este jornal não presta nem para limpar o meu sapato...” – reagiu Ruiter, enquanto fazia, com a publicação, o gesto dos engraxates lustrando calçados com um pano...

Estava armado novo sururu. O rapaz deu umas voltas pelo aero­porto, gesticulando e conversando, muito irritado, com outras pessoas. Não demorou, chegou ao aeroporto um numeroso grupo de oficiais da PM, que passaram a esculhambar todo mundo, e particularmente Ruiter, pela ofensa ao jornal.

– Acho que da turma o único que não era graduado era um sargento, que de certo foi chamado para amarrar a gente, porque, pelo jeito, naquele momento não havia algemas para toda a delegação – brinca Felizardo.

Ruíter se desmanchava em pedidos de desculpas, admitindo que ti­nha errado. Porém, o oficial que comandava o grupo não queria saber de justi­ficativas, e sim de passar uma descompostura daquelas em Ruiter.

Nisso, o quarto zagueiro Carlos Martins, que de tão preto chegava a ser azulado, e que estava tirando um cochilo, acordou zonzo de sono e pergun­tou: “Qual é a confusão agora, Ruiter? Se vão prender você, vão ter que prender todo mundo” – gritou Carlos Martins.

“Cala a boca, macaco!”... – berrou o oficial comandante do grupo. E deu uma ordem em seguida: “Comecem a descarregar a bagagem deles do avião, está todo mundo preso...”

Mais conversa e mil pedidos de desculpas dos mixtenses, que natu­ralmente atraíram as atenções de quem estava no aeroporto. Finalmente, com a intervenção do pessoal da Vasp, a delegação mixtense foi autorizada a em­barcar com destino a Porto Velho, onde acabou ficando mais dois dias por ter perdido a conexão do voo para Cuiabá.

Quando a delegação saía da sala para embarcar – lembra Ruiter – o oficial que liderava o grupo ainda fez uma advertência em forma de ameaça: “Caminhem direitinho para o avião. Quem olhar para trás vai em cana, fui bem claro?”

Ninguém olhou...


Um comentário:

  1. SENSÁCIONAL NÉLSON,ESTAS HISTÓRIAS QUE FAZEM ESSE ESPORTE SER TÃO APAIXONANTE.GRANDE ABS!!!

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