HONRA AO MÉRITO ESPORTIVO (15 DE NOVEMBRO DE 2012)
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Gente fina e tranqueira
Pessoas mais polidas, educadas, humildes, do que os irmãos Cruz Bandeira – Otair, Delvi, Idelvan e Juraci – que militaram no futebol do Mato Grosso indiviso entre 1957 e 1964, os dois primeiros defendendo o Araguaia Esporte Clube e os outros dois o Coxim Esporte Clube, estavam para nascer. Mas gente mais encrenqueira e curva de rio do que os quatro provavelmente não passou pelo futebol mato-grossense naquele período.
Fora de campo, Otair, que continuou sendo chamado pelo apelido de Ica mesmo depois que virou desembargador e presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso; o hoje promotor de Justiça aposentado Delvi; o advogado Idelvan e o então exator de rendas de Coxim, Juraci, eram um primor de pessoas. No entanto, quando trocavam suas vestes chiques que suas profissões lhes impunham por camisa, calção, meião e chuteira para jogar bola, viravam, individualmente, um poço de ignorância, grosseria, estupidez, ironia...
O mais mala dos quatro era Ica, que mesmo já investido na função de juiz de Direito de Alto Araguaia, quando entrava em campo esquecia sua condição de magistrado e aprontava pra diabo. Era provocador, insolente e briguento. Alto e forte como um touro, se precisasse, saía na porrada com adversários, sem se importar em que chão estava pisando...
Em 1961 ou 62 – Pedro Lima não se lembra exatamente o ano – o AEC foi disputar um amistoso com um time de Mineiros, cuja população sempre recebia muito bem os alto-araguaienses. Para variar, Ica, que raramente jogava uma partida inteira, porque era sempre expulso de campo, criou uma confusão tão grande que o juiz suspendeu o jogo quando eram decorridos apenas 20 minutos.
Para azar dos defensores do "Panterão", Ica foi se envolver logo com um jogador de uma família numerosa de baianos que viviam em Mineiros. Os homens da cidade não entraram em campo – nos velhos tempos não existia alambrado para proteger os jogadores – mas mandaram suas mulheres e namoradas fazer suas vezes. Elas obedeceram à ordem com vontade. E só pararam de bater nos jogadores do "Pantera do Leste" quando suas sombrinhas estavam em frangalhos...
– Naquele dia nós apanhamos pra valer. Mas a confusão, como sempre, acabou em festa. Poucas horas depois, estávamos todos juntos, inclusive muitas das nossas agressoras, tomando cerveja e dando gargalhadas, com as lembranças da surra de sombrinhas que tínhamos levado – recorda Pedro Lima.
Em Rio Verde, também em Goiás, em outro jogo Ica meteu seus companheiros em outra confusão daquelas. Revoltado com as molecagens que Ica estava aprontando, enchendo o saco de todo mundo, um torcedor conhecido por Altino Paraguaio entrou em campo dando tiros de revólver para cima. Foi aquela correria. Pelo menos dessa vez os jogadores de Alto Araguaia não entraram na taca...
Ica, Delvi, Idelvan e Juraci eram tão tranqueiras quando jogavam bola que às vezes procuravam armar confusão entre eles mesmos. Como aconteceu em 1963, quando o Araguaia Esporte Clube foi disputar um jogo com o Coxim, que tinha apenas dois jogadores da cidade – os irmãos Idelvan e Juraci – pois os outros eram do Operário e do Comercial, de Campo Grande.
Os quatro irmãos passaram os 90 minutos do jogo, que terminou empatado por 3x3, xingando uns aos outros. Era palavrão para tudo quanto era lado e o juiz não podia fazer nada se não ia sobrar – e como ia!... – para ele também. "Você é um grande filho da puta, domina direito essa bola..." – "Filho da puta é você, eu te conheço muito bem, seu..." – foram as frases que a torcida mais ouviu durante todo o jogo...
Como se os quatro não fossem filhos de uma mesma e honradíssima mãe...
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