“Se nós estivermos ganhando, bem no final da partida um
jogador vai sentar na bola..." – essa ordem foi dada pelo jogador e técnico
Ruiter na preleção no vestiário antes do Mixto entrar em campo em Rio Branco
para cumprir o quarto compromisso, encerrando uma excursão por gramados da
capital acreana em junho de 1972. Foi uma temporada bem louca, com o alvinegro
disputando 4 jogos em apenas cinco dias e se metendo em cada confusão...
Sentar na bola durante um jogo, uma ofensa intolerável no
futebol, era uma forma do Mixto se vingar do tratamento nada cortês que estava
recebendo dos acreanos. Já no primeiro jogo, que o Mixto perdeu de 1x0 para o
Atlético Acreano, os comentaristas de rádios e de jornais chamaram os jogadores
mixtenses de enganadores e pernas de pau. Afinal – ironizavam os cronistas – o
Mixto era um time de profissionais e os jogadores atleticanos simples
amadores...
Veio o 2º jogo, no dia seguinte, contra o Juventus, e o Mixto
perdeu de novo, por 2x1. Novamente a crônica esportiva rio-branquense caiu de
pau no alvinegro, cujo futebol era uma grande decepção para os acreanos. Os mixtenses
ficaram muito chateados com as críticas da crônica esportiva, pois o Tigre já
era uma equipe respeitada no futebol brasileiro.
No terceiro jogo, contra o Rio Branco, o Mixto conseguiu um
suado empate pela contagem mínima. O resultado não melhorou a cotação do alvinegro
perante os torcedores acreanos e muito menos à crônica esportiva.
Encerrando a temporada, o Mixto enfrentou o Independência. O
time mato-grossense jogava fácil e ganhava o jogo por 2x0, com todos os méritos.
Aos 43 minutos do 2º tempo, o goleiro Zé Rondonópolis, depois
de um ataque da equipe adversária, em vez de repor a bola em jogo, sentou-se sobre
ela e ficou girando a cabeça em todas as direções do estádio, numa atitude
zombeteira e provocativa!
Pra quê, xômano!... o pau quebrou feio! Num piscar de olhos,
centenas de torcedores
invadiram o campo e depois de tomar dos escoteiros que ajudavam a Polícia
Militar no policiamento aquelas espécies de bordunas de 1,5 m de comprimento
que usam em suas caminhadas em grupos, passaram a bater nos mixtenses sem dó.
Os jovens escoteiros, coitados, acompanhavam o massacre sem poder fazer nada.
– Nós parecíamos tropas do general Custer sitiadas pelos
índios sioux nos tempos da conquista do oeste americano – recorda o zagueiro
central Felizardo. Apesar da eficiência da PM na proteção dos mixtenses,
muitas pessoas da delegação alvinegra entraram na porrada pra valer.
O hotel onde o time mato-grossense estava alojado ficava bem
próximo do estádio. Os mixtenses voltaram para o hotel a pé, sob a proteção da
PM, pois os torcedores rio-branquenses queriam bater mais nos jogadores alvinegros
por causa da ofensa de Zé Rondonópolis.
A tumultuada partida foi realizada numa quarta-feira à noite
e logo que a delegação chegou ao hotel, o meio campo Ferreira, que era
chegadinho numa birita, raspou a barba e foi para as ruas das imediações sondar
como estava o ambiente. E voltou assustado com a revolta dos torcedores.
O embarque do Mixto para Cuiabá estava marcado para dois dias
depois, porque naquele distante 1972 avião de passageiros nos céus da Amazônia
era artigo de luxo. Para se vingar do insulto de Zé Rondonópolis, dezenas de
torcedores passaram a noite fazendo barulho nas imediações do hotel para não
deixar os mixtenses dormir...
A pancadaria no estádio e a arruaça dos torcedores no hotel
eram apenas o começo de uma série de problemas que a delegação do Mixto ainda
ia enfrentar em Rio Branco – lembra o massagista Carlito, do Mixto, que tinha
viajado no lugar de Lisboa, que não podia sair de Cuiabá.
Se já não bastasse a grande confusão da noite, lá pelas 11h30
estava armado o maior fuá defronte ao hotel onde a delegação alvinegra ficou
alojada. O motivo do rolo: a prisão do jogador Ferreira.
Acontece que Ferreira havia apostado com alguém da delegação
que ele tinha coragem de mijar defronte ao hotel em pleno dia. E no horário combinado
– entre 11h30 e 12 horas – Ferreira saiu do hotel, olhou para os lados da rua e
como não viu ninguém, começou a urinar...
Ferreira não tinha visto ninguém mesmo, nem um taxista que
estava dentro do seu carro a uns 30 metros dali. O taxista, que também estava
puto com a palhaçada de Zé Rondonópolis, ligou para a PM, que chegou rapidinho
e prendeu Ferreira por atentado ao pudor...
O chefe da
delegação/treinador/jogador Ruiter entrou na confusão em defesa do seu
companheiro. Mas a prova do crime – a calçada molhada de urina – estava ali. E
foi ajuntando pessoas, muitas delas já dispostas a dar uns catiripapos, de
novo, nos mixtenses.
Depois de muito bate-boca e ameaças, Ruiter fez um acordo com
os PMs que prenderam Ferreira: em vez de ir para uma cela, ficaria “detido” no
hotel, de onde só sairia quando a delegação alvinegra fosse para o aeroporto...
Acordo selado e cumprido. No dia seguinte, logo cedo a
delegação se mandou para o aeroporto de Rio Branco para não correr o risco de
perder o voo. Chegava de tanto rolo! Mas o céu estava nublado e uma densa
neblina impedia o avião, que já estava com a bagagem dos passageiros, de
decolar.
Enquanto a tripulação aguardava autorização da torre de
controle para a aeronave levantar voo, Ruiter resolveu engraxar os sapatos. Aí,
a certa altura, apareceu onde Ruíter estava um empregado do aeroporto que
começou a provocar o jogador, afirmando que o Mixto era uma porcaria de time de
futebol, não valia nada, como a imprensa esportiva acreana estava dizendo...
De repente, Ruiter, que lia um jornal de Rio Branco que
falava do Mixto, explodiu com o torcedor: “Este jornal não presta nem para
limpar o meu sapato...” – reagiu Ruiter, enquanto fazia, com a publicação, o
gesto dos engraxates lustrando calçados com um pano...
Estava armado novo sururu. O rapaz deu umas voltas pelo aeroporto,
gesticulando e conversando, muito irritado, com outras pessoas. Não demorou,
chegou ao aeroporto um numeroso grupo de oficiais da PM, que passaram a
esculhambar todo mundo, e particularmente Ruiter, pela ofensa ao jornal.
– Acho que da turma o único que não era graduado era um
sargento, que de certo foi chamado para amarrar a gente, porque, pelo jeito,
naquele momento não havia algemas para toda a delegação – brinca Felizardo.
Ruíter se desmanchava em pedidos de desculpas, admitindo que
tinha errado. Porém, o oficial que comandava o grupo não queria saber de justificativas,
e sim de passar uma descompostura daquelas em Ruiter.
Nisso, o quarto zagueiro Carlos Martins, que de tão preto
chegava a ser azulado, e que estava tirando um cochilo, acordou zonzo de sono e
perguntou: “Qual é a confusão agora, Ruiter? Se vão prender você, vão ter que
prender todo mundo” – gritou Carlos Martins.
“Cala a boca, macaco!”... – berrou o oficial comandante do
grupo. E deu uma ordem em seguida: “Comecem a descarregar a bagagem deles do avião, está todo mundo
preso...”
Mais conversa e mil pedidos de desculpas dos mixtenses, que
naturalmente atraíram as atenções de quem estava no aeroporto. Finalmente, com
a intervenção do pessoal da Vasp, a delegação mixtense foi autorizada a embarcar
com destino a Porto Velho, onde acabou ficando mais dois dias por ter perdido a
conexão do voo para Cuiabá.
Quando a delegação saía da sala para embarcar – lembra Ruiter
– o oficial que liderava o grupo ainda fez uma advertência em forma de ameaça:
“Caminhem direitinho para o avião. Quem olhar para trás vai em cana, fui bem
claro?”
Ninguém olhou...